quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Resenha: Bruthus - Sexta-Feira

 

Por Rodrigo Maldonado

Nota: 08.0/10.0

A partir da trajetória da banda, de entrevistas com os integrantes e das avaliações já publicadas sobre o lançamento, o ponto mais interessante de “Sexta-Feira” é perceber como a BRUTHUS consegue manter sua identidade sem transformar a nova música em mera repetição do que já fez. Formado em Nova Friburgo (RJ) em 2017, o grupo construiu sua proposta a partir do encontro entre Rock, Metal, Crossover e Thrash, sempre com letras em português e uma postura bastante ligada à experiência dos shows. O single, lançado em 29 de maio de 2026, chega com pouco mais de três minutos e trabalha justamente essa objetividade: entra rapidamente no assunto, desenvolve suas ideias sem excessos e termina deixando uma impressão bastante direta.

Musicalmente, “Sexta-Feira” encontra sua principal força nos riffs encorpados de Eduardo Peixe, guitarrista que, segundo os próprios integrantes, exerce papel central na criação das bases da BRUTHUS ao lado do baterista Alexandre Sorin. Há uma condução pesada, mas sem perder fluidez, enquanto as guitarras assumem uma posição de destaque e ajudam a estabelecer o caráter mais agressivo da composição. Essa escolha conversa com aquilo que Eduardo e Alexandre já demonstravam no processo criativo da banda: riffs que soem bem aos ouvidos, experimentação durante os ensaios e uma construção que privilegia a força da música em vez de uma complexidade artificial.

Na cozinha, Alexandre Sorin demonstra novamente por que sua participação é tão importante para o equilíbrio do conjunto. A bateria sustenta a faixa com firmeza e movimento, evitando que o peso se torne excessivamente rígido, enquanto o baixo de Gustavo Zebs ajuda a preencher o espectro sonoro sem disputar espaço desnecessariamente com as guitarras. Esse entrosamento é particularmente significativo quando lembramos que a BRUTHUS sempre valorizou o aspecto orgânico de suas composições e gravações. Em entrevistas, os músicos explicaram que as estruturas instrumentais partem principalmente de Eduardo e Alexandre, recebendo posteriormente as contribuições dos demais integrantes, inclusive nas linhas de baixo, letras e arranjos.

Outro elemento decisivo está nos vocais de Zebs e na utilização do português, característica que continua funcionando como uma das marcas mais reconhecíveis da BRUTHUS. Em vez de tratar o idioma como uma limitação, o grupo o transforma em ferramenta de aproximação, algo que os próprios integrantes associam à facilidade de comunicação com o público e à assimilação dos refrões durante as apresentações. “Sexta-Feira” preserva essa vocação direta, enquanto sua instrumentação mantém o equilíbrio entre agressividade e acessibilidade. O resultado é uma música que pode agradar tanto quem procura riffs pesados quanto quem se identifica com uma abordagem mais próxima do Rock nacional, sem necessidade de se prender a uma classificação rígida.

No conjunto, “Sexta-Feira” representa uma evolução coerente para a BRUTHUS. Não há aqui a tentativa de reinventar sua fórmula, mas uma demonstração de que o quarteto conhece seus recursos e sabe utilizá-los com maior segurança. A composição direta, os riffs vigorosos, a bateria consistente, o baixo bem integrado e os vocais em português formam um conjunto eficiente, enquanto a produção permite que a energia da execução permaneça evidente. Depois do EP O Sacode, do álbum Comigo Não e de singles como “Nocaute” e “Ladrão”, a nova faixa mostra uma banda confortável com sua própria personalidade e ainda interessada em ampliar os caminhos de sua música sem abandonar aquilo que a tornou reconhecível.

Resenha: Jordan's Empire of Dreams - Chapter I: The Crossing

 

Por Rodrigo Maldonado

Nota: 08.0/10.0

Chapter I: The Crossing apresenta a JORDAN’S EMPIRE OF DREAMS como um projeto interessado em construir uma experiência mais narrativa do que simplesmente reunir músicas de Metal Sinfônico. O álbum de estreia, lançado em 2026, reúne dez faixas que transitam entre Metal, Rock Alternativo e atmosferas cinematográficas, explorando contrastes entre peso, melodia, introspecção e grandiosidade. A proposta funciona melhor quando o disco é encarado como uma jornada, já que a própria sequência — da inquietação de “I’m Lost” à dimensão imaginária de “The Empire” — sugere um percurso de transformação.

Um dos méritos do trabalho está na maneira como JORDAN’S EMPIRE OF DREAMS utiliza as melodias para estabelecer diferentes estados emocionais. “I’m Lost” é uma abertura eficiente justamente por traduzir a sensação de procura que atravessa o conceito do álbum, alternando momentos mais contemplativos com passagens de maior intensidade. Na sequência, “The Truth in You” aprofunda essa atmosfera de descoberta, enquanto “Kingdom of Gold” aposta em uma construção mais objetiva, sem abrir mão do caráter épico. Com apenas 3min34, esta última consegue condensar em uma estrutura relativamente curta a ideia de superar medos e abandonar pesadelos em busca de um novo começo.

A construção instrumental também merece atenção porque evita que a proposta cinematográfica dependa apenas de grandiosidade. “Awakening”, com pouco mais de um minuto, funciona como uma passagem estratégica antes de “In Search of Dreams”, enquanto “Drowned in Shadows” leva o álbum para um território mais sombrio. Com seis minutos, esta última é uma das composições mais interessantes do repertório justamente por explorar com mais paciência seus contrastes, permitindo que a atmosfera se desenvolva antes de alcançar seus momentos de maior intensidade. “Beyond the Embers”, por sua vez, mantém essa alternância entre luminosidade e sombra e figura entre as faixas que melhor representam a amplitude emocional do projeto.

“A Place Where I Can Hide” reforça o lado mais intimista da JORDAN’S EMPIRE OF DREAMS, funcionando como um momento de recolhimento dentro da narrativa. Já “Facing the Moon”, com 4min13, amplia novamente a dimensão contemplativa e prepara o terreno para “The Empire”, responsável por encerrar o percurso principal. Esta última merece destaque pela riqueza de seu imaginário: rios prateados, flores em chamas e estrelas intensas compõem um cenário fantástico que traduz musicalmente a ideia de um “império dos sonhos”. É nesse ponto que o álbum deixa mais evidente sua intenção de criar um universo próprio, em vez de simplesmente apresentar uma coleção convencional de canções.

Como álbum de estreia, Chapter I: The Crossing encontra sua principal força na coerência conceitual. A JORDAN’S EMPIRE OF DREAMS prefere trabalhar com atmosfera, narrativa e emoção, utilizando elementos do Metal Sinfônico e do Rock Alternativo para construir uma experiência próxima de uma trilha sonora. A abordagem mais contemplativa pode exigir uma audição atenta, sobretudo porque algumas composições priorizam desenvolvimento e ambiência em detrimento de refrões imediatamente memoráveis. Ainda assim, “I’m Lost”, “Kingdom of Gold”, “Drowned in Shadows”, “Beyond the Embers” e “The Empire” deixam clara a intenção de apresentar um universo que continuará sendo desenvolvido nos próximos capítulos. O resultado é uma estreia que cumpre sua função introdutória e, principalmente, desperta curiosidade sobre os caminhos que essa narrativa ainda poderá percorrer.

Resenha: Mad Sneaks - Incognito

 

Por Rodrigo Maldonado

Nota: 08.0/10.0

Incognito, primeiro álbum da MAD SNEAKS, é um trabalho que transforma referências do Rock alternativo dos anos 1990 em matéria-prima para uma produção deliberadamente orgânica. Lançado em 7 de março de 2026, o disco reúne dez faixas e foi disponibilizado exclusivamente pelo Bandcamp e em uma edição física limitada em CD, decisão coerente com a postura assumida pelo trio diante do atual modelo de consumo musical. Em vez de perseguir fórmulas de streaming, playlists ou algoritmos, Agno Dissan, Amaury Johns e Phill Andreas optaram por registrar aquilo que queriam ouvir e tocar, preservando uma sonoridade crua que transita por Grunge, Alternative Rock, Punk e Stoner.

Na guitarra e nos vocais, Agno Dissan conduz boa parte da personalidade do álbum. Sua interpretação alterna momentos ásperos e vulneráveis, enquanto as guitarras preservam aquela sensação de espontaneidade que a MAD SNEAKS procura desde sua formação, em 2009, ainda em Alpinópolis (MG). “The Cure” é um dos pontos altos justamente por condensar essa identidade: a composição combina peso e melancolia, criando uma atmosfera introspectiva sem abrir mão de riffs marcantes. Já “Dead Killer”, escolhida para abrir o repertório, ganha dimensão adicional com a participação de Page Hamilton, do Helmet, cuja presença acrescenta uma camada de agressividade ao Alternative Rock da banda. A faixa também evidencia a importância das conexões construídas pelo trio ao longo dos anos, incluindo trabalhos com produtores como Jack Endino e Toby Wright.

Amaury Johns, por sua vez, desempenha papel decisivo na manutenção do impacto rítmico de Incognito. A bateria não procura ornamentação excessiva: é direta, vigorosa e suficientemente dinâmica para fazer o trio soar maior do que sua formação sugere. “Dirty Blood” é um excelente exemplo dessa abordagem. Com apenas 2min15s, a faixa funciona como uma descarga concentrada, explorando tensão, cansaço e conflitos internos em uma estrutura curta e incisiva. “Coma” segue por uma direção mais sufocante, utilizando peso e repetição para abordar medo, dependência e autodestruição. A produção, concebida para não esconder os músicos, reforça justamente essa característica: a MAD SNEAKS queria que o ouvinte percebesse três pessoas tocando de verdade, sem eliminar as imperfeições que fazem parte da experiência orgânica.

No baixo, Phill Andreas fornece a sustentação necessária para que as guitarras tenham liberdade sem perder densidade. Seu instrumento ganha especial relevância na construção das passagens mais pesadas, contribuindo para o equilíbrio entre sujeira, groove e melodia que percorre o repertório. “Biocide”, uma das três faixas que Agno Dissan apontou em entrevista como representativas do conceito do álbum, é um destaque nesse sentido: com quase cinco minutos, apresenta uma atmosfera mais sombria e progressiva, enquanto a banda explora o lado mais caótico de sua linguagem. “Label” também merece atenção por sua abordagem provocativa, tratando dos julgamentos e rótulos impostos pelos outros com uma estrutura simples, porém eficiente.

O mérito de Incognito está, enfim, em sua coerência. A MAD SNEAKS não tenta esconder suas influências — Nirvana, Silverchair, Alice in Chains, Helmet, Ramones, Soundgarden, Social Distortion, entre outras —, mas também não se limita a reproduzi-las. O álbum é uma releitura em inglês de Incógnita, trabalho originalmente concebido em 2012, agora apresentado com arranjos renovados e uma identidade sonora mais pesada. “Pandora”, “Shots, Roses and Fire” e “Medeleine” ampliam a paleta emocional, enquanto “Endless Song” encerra o percurso sem quebrar a proposta de uma audição contínua. O resultado é um registro que aposta na vulnerabilidade, no peso e na espontaneidade para defender uma ideia simples, mas cada vez menos comum: fazer Rock porque ainda existe algo a dizer — e porque ainda há prazer em tocar.

Resenha: Uganga - Ganeshu

 

Por Rodrigo Maldonado

Nota: 08.5/10.0

Ganeshu é um daqueles álbuns que não pedem apenas uma faixa isolada, mas uma audição completa para que suas diferentes camadas sejam devidamente absorvidas. Em seu oitavo trabalho de estúdio, a UGANGA condensa dez músicas em aproximadamente 26 minutos e reafirma uma concepção muito particular de Crossover, na qual Thrash Metal, Hardcore e Groove Metal convivem com Dub, Rap, psicodelia e referências da música mineira. Lançado em 9 de maio de 2025, o disco também funciona como registro de um período de profundas transformações na trajetória do grupo, que encontrou justamente nessas mudanças o impulso para um novo ciclo criativo.

Manu Joker permanece como o grande eixo artístico da UGANGA, mas seu desempenho em Ganeshu está longe de depender exclusivamente do peso de sua história. Fundador da banda e figura ligada à cena extrema mineira desde os anos 1980, o vocalista combina agressividade, clareza e diferentes texturas de interpretação, mantendo as letras em português sempre no centro das composições. “A Profecia” é um dos melhores exemplos: depois da introdução atmosférica de “Igarapés”, a música entra como uma pancada de Hardcore e Thrash, sustentada por uma energia urgente e por uma narrativa inspirada na viagem da banda à Amazônia Paraense. A participação de Paulo “Bigfoot”, do Delinquentes, na composição do riff ainda acrescenta uma conexão interessante com o Punk/Hardcore nacional.

Na bateria, Juninho Silva oferece uma atuação fundamental para que o álbum não se torne apenas uma sucessão de riffs velozes. Seu trabalho explora quebras, mudanças de andamento e grooves que mantêm as faixas em constante movimento, algo especialmente perceptível em “Confesso”. A música combina uma bateria vigorosa com bases pesadas e alterações rítmicas que reforçam o caráter físico da proposta, enquanto “Tem Fogo!” amplia ainda mais esse espectro ao aproximar Metal, Funk e Rap sem perder a contundência. O processo de gravação contribuiu diretamente para esse resultado: a base instrumental foi registrada praticamente ao vivo no Rocklab Studio, em Anápolis (GO), com Manu fazendo uma guia vocal, estratégia que buscou preservar a urgência apresentada pela banda nos palcos.

Nas cordas, Jean Pagani e Raphael “Ras” Franco completam a formação responsável pelas gravações, respectivamente nas guitarras e no baixo. Pagani constrói uma parede sonora que passeia por riffs secos, Thrash e Groove, enquanto Ras garante sustentação às frequências graves sem comprometer a dinâmica do conjunto. “Exu Não Passa Pano” sintetiza bem essa combinação: riffs agressivos, andamento convidativo ao mosh e uma atitude Punk se unem a uma letra de confronto, tornando a faixa outro dos grandes momentos do repertório. Já a faixa-título acrescenta uma dimensão mais ritualística ao disco, enquanto “Psicoraio Dub” comprova que a UGANGA não utiliza suas influências externas como mero ornamento, incorporando-as organicamente à arquitetura das músicas.

O aspecto mais interessante de Ganeshu, portanto, está justamente na liberdade com que a UGANGA transforma referências aparentemente distantes em uma linguagem coerente. O próprio título sintetiza esse conceito ao unir simbolicamente Ganesha e Exu, enquanto as músicas transitam por espiritualidade, natureza, resistência, crítica social e experiências pessoais. “Pressentimento”, por exemplo, expande o repertório com Reggae e Rap e funciona como uma das passagens mais diversificadas do álbum. O resultado é um trabalho curto, direto e inquieto, no qual cada integrante contribui para uma sonoridade que não parece interessada em obedecer a fórmulas. Mais do que simplesmente celebrar três décadas de trajetória, Ganeshu registra uma UGANGA renovada, pesada e disposta a continuar abrindo seus próprios caminhos.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Resenha: Demon Noise - Black Wings

 

Por Rodrigo Maldonado

Nota: 09.5/10.0

O mais recente lançamento da banda mineira DEMON NOISE é o single "Black Wings", que chega sem cerimônia e já mostrando, logo de cara, a que veio. Vinda de Minas Gerais, a banda aposta em uma sonoridade crua, direta e sem polimento algum, entregando um som extremo, sujo na medida certa e totalmente alinhado com a proposta underground que o público do estilo idolatra de verdade.

Musicalmente, a faixa mergulha de cabeça no Raw Black Metal da segunda onda dos anos 1990, com referências claras a nomes como Immortal, Darkthrone, Mayhem e Emperor. A influência aparece no clima gelado, nos riffs cortantes e na atmosfera caótica, deixando tudo bem raiz, sem frescura e com aquela vibe sombria que é praticamente obrigatória dentro do estilo.

A letra se conecta diretamente com a proposta satânica e blasfema da banda, deixando claro que o grupo é extremamente engajado nos preceitos do satanismo e das artes negras. O discurso é assumidamente provocador e segue firme dentro da estética extrema que a DEMON NOISE constrói desde sua identidade visual até sua postura artística. A arte da capa acompanha esse conceito e se conecta de forma coerente com o conteúdo lírico, reforçando o clima obscuro e ritualístico do artefato.

No aspecto técnico, a produção foi certeira ao privilegiar a sujeira que a música exige, sem tentar domesticar o som ou torná-lo mais palatável. Todas as camadas e texturas aparecem bem evidentes, mantendo o caos controlado, com guitarras rasgando, bateria agressiva e vocais que soam como parte essencial da atmosfera, do jeito que o Black Metal mais cru pede.

Com esse lançamento, a expectativa por um álbum completo da banda já é real. O single deixa claro que a DEMON NOISE está afiada, confiante na própria proposta e pronta para entregar um trabalho maior, mantendo a essência extrema e a pegada underground que a galera mais fiel ao estilo tanto valoriza.

Resenha: Adna Melan - Lie

 

Por Rodrigo Maldonado

Nota: 07.5/10.0

O mais recente lançamento da cantora ADNA MELAN, o single "Lie", chega ao público como um trabalho que aposta em sensibilidade, clima introspectivo e uma estética sonora bem alinhada com as tendências alternativas atuais. De forma leve, mas certeira, a faixa entrega uma proposta que conversa fácil com quem busca algo mais emocional, sem perder atitude e personalidade.

No campo musical, o single traz influências claras de Gothic Rock e Metal, com traços de psicodelia que deixam a audição mais viajada e atmosférica. A mistura funciona de maneira natural, criando um som denso, porém acessível, com arranjos que alternam momentos de tensão e suavidade, resultando em uma faixa envolvente, daquelas que crescem a cada nova audição.

A letra se conecta diretamente com a fragilidade das relações humanas e evidencia uma artista disposta a expor sentimentos de forma aberta e honesta. Esse cuidado com a parte emocional mostra uma preocupação em transformar vivências pessoais em arte, deixando tudo mais real e próximo de quem ouve. A arte da capa, construída a partir de uma foto da própria cantora, reforça esse clima intimista e se conecta de maneira direta com a proposta lírica do single.

A produção também acerta ao privilegiar a suavidade que a música exige, apostando em uma construção sonora limpa e bem distribuída. Todas as camadas e texturas aparecem de forma evidente, sem exageros, garantindo um resultado equilibrado, moderno e com uma ambiência que favorece a proposta sensível e contemplativa da composição.

Diante da boa repercussão do lançamento, a expectativa da imprensa especializada e dos fãs já é alta por um álbum completo da artista. O single sinaliza um momento criativo consistente e indica que há material, identidade e maturidade suficientes para sustentar um trabalho mais amplo, mantendo o interesse do público em seus próximos passos.

Resenha: Bruthus - Ladrão

 

Por Rodrigo Maldonado

Nota: 08.5/10.0

O mais recente lançamento da banda carioca BRUTHUS, o single "Ladrão", consolida uma proposta artística orientada por rigor estético, identidade sonora bem definida e discurso alinhado ao momento sociopolítico do país. Formado no cenário de Rio de Janeiro, o grupo apresenta uma composição direta, objetiva e marcada por forte senso de urgência, características que reforçam sua inserção entre os nomes mais atentos à realidade contemporânea.

Musicalmente, o trabalho se estrutura a partir de influências evidentes do Thrash Metal e do Hardcore, incorporando ainda elementos pontuais do Rock pesado nacional. A combinação desses referenciais resulta em uma faixa agressiva, dinâmica e de forte impacto, sustentada por riffs incisivos, andamento acelerado e uma condução rítmica que privilegia a contundência sem abrir mão da coesão entre as partes.

A letra estabelece um diálogo direto com a política brasileira, apresentando uma abordagem crítica e posicionada, o que evidencia o caráter politizado da banda e sua disposição em utilizar a música como ferramenta de reflexão social. A narrativa proposta encontra correspondência visual na arte de capa, que se conecta de forma clara ao conteúdo lírico, ampliando o alcance da mensagem e reforçando a coerência conceitual do lançamento no contexto de Brasil.

No aspecto técnico, a produção se mostra particularmente eficiente ao priorizar o peso que a música exige, com todas as camadas e texturas bem evidentes na mixagem. O equilíbrio entre guitarras, baixo, bateria e vocais favorece a leitura de cada elemento, garantindo impacto sonoro sem comprometer definição, dinâmica e clareza ao longo de toda a faixa.

Diante da consistência artística apresentada neste lançamento, cresce a expectativa por parte da imprensa especializada e do público em relação a um novo álbum completo da banda, ainda mais porque os caras fazem parte de uma grande gravadora, a MS Metal. O single reforça a maturidade do grupo e sinaliza um momento criativo sólido, ampliando o interesse em seus próximos passos dentro do cenário nacional de música pesada.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Entrevista - Uganga: O Peso do Crossover Brasileiro Rumo ao Exterior

 

- Manu, obrigado pelo seu tempo para esta entrevista à Brazil Legion. Já começo agradecendo, por me desafiar enquanto fã de Crossover, pois o “Ganeshu” é algo até difícil de se traduzir em palavras…

Manu Joker: Salve mano, tudo certo? Eu que fico agradecido pelo interesse no nosso trabalho, curioso pra saber se esse desafio foi positivo (risos). Vamo lá!

- Conte-nos um pouco mais sobre a produção do material. Quem foi o produtor? Como se deu o processo? A banda teve voz ativa nas decisões?

Manu Joker: Novamente eu dividi a produção com nosso grande amigo Gustavo Vazquez (Rocklab Studio). Eu cuido da pré produção, conceito, gerenciar as várias ideias que viram músicas, fechar as composições e deixar a banda pronta pro estúdio. Já o Gustavo é o responsável pela engenharia de áudio, mix, master, timbres etc… Cada um no seu quadrado. Formamos um time interessante que vai se repetir no próximo trabalho, a gente se entende bem. Quanto a voz ativa, no nosso caso é 100% mano. Temos nossa disciplina de trabalho com certeza, também não repetimos erros, mas somos uma banda democrática em essência e na prática.

- Outro fator interessante é que vocês mesclam ao som de vocês, influências de Hardcore. Vocês fizeram algum tipo de pesquisa, para poder inserir tais elementos de maneira tão natural?

Manu Joker: A pesquisa vem das décadas ouvindo o estilo. Nós mesclamos o hardcore no nosso som desde a nossa gênese, é parte da nossa receita musical. Bandas como Exploited, Discharge, Black Flag, D.R.I., Agnostic Front, Lobotomia ou até do punk 77 e do pós punk estão entre nossas referências básicas assim como tantas outras bandas de metal.

- Vou me abster de classificar a banda como este ou aquele segmento, dentro do Rock/Metal. Então, passo a palavra para você! Como a banda se classifica em termos de gênero?

Manu Joker: Crossover livre, com cheiro de coturno, incenso e ganja. Nós temos nossas raízes no crossover oitentista, isso é fato e não se discute. O lance é que nós somamos a essa base vários outros elementos vindos da cena noventista, assim como o dub e o reggae Jamaicano, coisas de música eletrônica como o rap, o trip hop ou o drums and bass... Até música mineira de raiz é uma referência cara, tudo isso nos moldou e seguimos evoluindo e olhando pra frente, sem medo de perder nossa identidade.

- Eu adorei a produção, muito peso e tudo inteligível. Como você nos descrevia este processo até chegar no produto final que encontramos em “Ganeshu”?

Manu Joker: Um processo natural, leve, metódico e cada vez mais aprimorado. Não somos banda de ficar “brisando” além da conta e gastando dinheiro atoa em estúdio, a gente chega pronto pro que é preciso fazer, faz e vai embora. O Gustavo sugeriu que dessa vez nós gravássemos tudo ao vivo, usando uma voz de guia e acrescentando as vozes definitivas, solos e alguns outros detalhes depois. Fizemos dessa maneira e foi uma excelente ideia, “Ganeshu” é o álbum que mais perto chega do impacto da banda ao vivo.

- O material já vem sendo distribuído em outros mercados? Tive contato com o álbum digital, através do pessoal da MS Metal, e acredito que ele mereça chegar na Europa…

Manu Joker: Eu também acredito que mereça e estamos trabalhando sério para isso. Em fevereiro teremos a prensagem do CD para distribuição no mercado nacional e já agora estamos iniciando junto da MS o trabalho para fortalecer nosso nome lá fora, em especial na Europa. Já fizemos duas tours européias, temos álbuns lançados por lá e em parceria com selos locais e agora é hora de voltar.

- Outro ponto importante é que vocês optaram pelo português, para inserir as letras nas composições. Fugiram do inglês? Podem nos explica isso?

Manu Joker: Nessa banda sempre foi assim, desde 1993 a proposta é, salvo raras exceções, cantar na nossa língua. Somos uma banda que usa o dialeto das ruas, nossas letras são sobre coisas que vivemos, experimentamos, pelos “mundos” à nossa volta… Cantar em português deixa tudo mais verdadeiro ao meu ver, acho que fica mais clara a ideia. Como disse, já fizemos coisas pontuais em inglês e espanhol mas a grande maioria das nossas músicas é assim, tipo conversa de esquina. (Risos). Gosto de inúmeras bandas que cantam em inglês, tá tudo certo quanto a isso, só me cansa um pouco essa “obrigatoriedade” de se cantar em inglês, esse fictício único caminho. Acho isso um conceito velho e que em alguns casos chega a ser constrangedor.

- Suponho que “Ganeshu” já esteja sendo promovido ao vivo, como tem sido os shows em suporte ao disco?

Manu Joker: Começamos a tour logo que o álbum saiu e até agora tem sido muito foda, as pessoas querem nos ver ao vivo e querem definitivamente ouvir o material novo. Somos uma banda do underground, artistas independentes que lutam a 3 décadas sem hypes comprados ou sem surfar tendências, então sabemos que nessas estradas tem vários buracos e obstáculos. Isso posto estamos felizes, empolgados e cheios de disposição pro que vem pela frente.

- Quais os planos futuros da UGANGA? Suponho que agora que vocês contam com uma grande gravadora por aqui, um novo álbum esteja nos planos, confere?

Manu Joker: A parceria com a MS está no início mas estamos muito otimistas com os resultados que alcançaremos juntos. Definitivamente um novo álbum está nos planos e pra falar a verdade já começamos a compor. 2026 chegou trazendo conquistas interessantes.

- Manu, mais uma vez, muito obrigado por todos os esclarecimentos. Se algo ficou pendente, por favor…

Manu Joker: Novamente agradeço ao interesse pelo nosso trabalho e espero vê-los na estrada, um salve de MG pra geral.

 

 

Entrevista - Adna Melan: Um toque de feminilidade no Rock Gótico Tupiniquim

 

- Adna, obrigado pelo seu tempo para esta entrevista à Brazil Legion. Já começo agradecendo, por me desafiar enquanto fã de Rock/Metal, pois o single “Lie” é algo até difícil de se traduzir em palavras...

Eu que agradeço a oportunidade de falar um pouco mais sobre o projeto e o novo single.

- Conte-nos um pouco mais sobre a produção do material. Quem foi o produtor? Como se deu o processo? A banda teve voz ativa nas decisões?

“Lie” teve a participação de dois produtores em momentos distintos. O processo criativo ficou concentrado, em sua maior parte, em mim e no produtor André Paixão. Inicialmente, gravei uma demo em casa e enviei para ele. Com base na minha versão inicial, o André estruturou a música no estúdio, aprimorando minha composição e contribuindo para o desenvolvimento do arranjo. Os demais detalhes do single foram construídos a partir daí. O segundo produtor, Pablo Greg, elevou a qualidade da gravação e foi o responsável pela pós-produção.

- Outro fator interessante é que vocês mesclam ao som de vocês, influências do Gótico. Vocês fizeram algum tipo de pesquisa, para poder inserir tais elementos de maneira tão natural?

No meu caso, quando estou criando algo, o processo criativo acontece de maneira natural. A música surge com sua própria identidade, e as influências se manifestam de forma espontânea. Com o tempo, a identidade sonora foi se desenvolvendo e sendo moldada através da minha vivência e do que eu consumia, e o gótico sempre esteve muito presente.

- Vou me abster de classificar a banda como este ou aquele segmento, dentro do Rock/Metal. Então, passa a palavra para você! Como a banda se classifica em termos de gênero?

Gothic e alternative. Os singles anteriores estavam mais próximos do rock. “Lie” já se encaixa mais em gothic metal, que é o gênero que pretendo explorar mais, ainda trazendo elementos do alternative, e buscando um som mais pesado.

- Eu adorei a produção, muito encorpada e tudo inteligível. Como você nos descrevia este processo até chegar no produto final que encontramos em “Lie”?

Primeiramente, escrevi a letra com a melodia. A partir daí, comecei a imaginar a atmosfera do início, com menos instrumentos; a guitarra do pré-refrão entrando e desaparecendo antes da voz começar; a guitarra das demais partes e o espaço para o solo; vocais de fundo; entre outros detalhes. Os produtores fizeram um excelente trabalho aprimorando minha composição inicial e somando no processo com outras ideias. A pós-produção trouxe o refinamento do som, o equilíbrio entre cada faixa da gravação e o destaque de determinados elementos, o que trouxe um maior impacto para a música.

- O material já vem sendo distribuído em outros mercados? Tive contato com a versão digital, através do pessoal da MS Metal, e acredito que ele mereça chegar na Europa com um produto físico... O que você pensa a respeito?

Fico contente com a consideração. Honestamente, não planejamos o lançamento físico do single. Pretendemos avaliar o formato físico no lançamento do primeiro álbum.

- Outro ponto importante é que vocês optaram pelo inglês desta vez, para inserir as letras nas composições. Fugiram do português? Podem nos explica isso?

O uso do inglês foi mais do que uma escolha. Desde pequena, eu gostava muito e tinha o desejo de aprender o idioma, também com o objetivo de escrever letras de música. Comecei a escrever aos 12 anos de idade e, desde então, praticamente sempre usei o inglês. Fui aprendendo o idioma a medida em que aprendia a expressar sentimentos e experiências em palavras. E como idiomas diferentes têm expressões e estruturas distintas, passou a ser mais fácil e natural para mim escrever em inglês. Além disso, acho positivo o fato de ser uma língua que é compreendida por pessoas ao redor do mundo inteiro, o que facilita alcançar um público maior.

- Suponho que “Lie” já esteja sendo promovido ao vivo, como tem sido os shows em suporte ao disco?

Ainda não começamos a fazer shows, mas estou ansiosa para ter a experiência.

- Quais os planos futuros da ADNA MELAN? Suponho que agora que vocês contam com uma grande gravadora por aqui, um novo álbum esteja nos planos, confere?

Continuo escrevendo novas músicas, mas ainda não há planos concretos de futuros lançamentos. Porém, certamente lançar um álbum é um desejo que espero realizar em algum momento.

- Adna, mais uma vez, muito obrigado por todos os esclarecimentos. Se algo ficou pendente, por favor...

Obrigada a você pelo espaço, foi um prazer!

Resenha: Bruthus - Sexta-Feira

  Por Rodrigo Maldonado Nota: 08.0/10.0 A partir da trajetória da banda, de entrevistas com os integrantes e das avaliações já publicadas...